DESPERTAR


Pertenço a um povo praticamente extinto agora __ somos predadores.

Sobrevivemos de sangue e carne humanos por muitas eras.

Entre nós não há machos __ um erro genético, talvez...

Ou um merecido castigo dos Deuses.

Os poucos machos que houve entre nós viveram como escravos. Eram capturados na Floresta Sombria, extenso território além da Cidadela, imerso num eterno anoitecer.

Esta terra que habitamos é ungida com uma luz mortiça, como se até o sol houvesse desistido de nós __­­ as profecias dizem que ele não irá durar muito mais, é uma questão de tempo até que se apague totalmente, e, então, as trevas reinarão neste mundo, e a vida se tornará uma maldição. Ou um martírio.

Minha mãe, se é que posso chamá-la assim, pois também era nossa líder, e eu sou uma das muitas filhas que gerou, ensinou a todas nós a história de nossa origem. Conheço minha linhagem inteira, que remonta a muitos e muitos ciclos, antes da Grande Terra dividir-se, antes de nos estabelecermos aqui.

Mas nos rituais junto ao fogo sagrado, quanto nos reuníamos para celebrar a vida, eu via sombra em seus olhos. O orgulho que ela nos incitava a ter, eu não enxergava em seu rosto. Talvez eu fosse a única a perceber, pois seu olhar sempre pousava em mim, como uma súplica.

Nem todas as fêmeas de meu povo podiam gerar filhos.

De fato, a maior parte nascia estéril, por isso cabia às que eram férteis a responsabilidade de garantir nossa existência e gerar tantos descendentes quanto seus corpos permitissem. Minha mãe foi uma dessas __ gerou vinte e cinco crianças, sendo eu a última, quando seu corpo já exausto, por fim, secou, e sua saúde enfraqueceu tanto que passou a necessitar de doses cada vez maiores de uma estranha infusão.

Estes mistérios somente eram revelados à líder, sempre que uma mãe morria e outra tomava seu lugar.

Na verdade, a maior parte do conhecimento perdeu-se de geração em geração. E minha mãe não sabia ler os escritos preservados na Cripta, onde nossos corpos eram depositados depois que o sopro da vida nos abandonava. A mãe de minha mãe também não podia fazê-lo, creio, tampouco a mãe da mãe de minha mãe. Não posso afirmar.

Por ser a mais nova de suas filhas, passei mais tempo com ela, forjou-se entre nós duas um vínculo maior, talvez, ou assim pensei até o dia da Consagração, cerimônia em que comemoramos o primeiro sangramento de uma fêmea.

Não sei se por ser a última de suas filhas, ou por razões que somente conhecidas dos Deuses, meu sangramento tardou muito a vir, meu corpo permanecendo inalterado __ motivo de consternação para as outras mulheres e de quase pavor para minha mãe. Presumi que elas se preocupassem com meu bem-estar. Até descobrir a verdade aterradora: eu era a única fêmea fértil da prole de minha mãe e de todo o meu povo. Deveria substituí-la no dever de procriar, cuidar que meu corpo fosse utilizado com a máxima eficiência para dar à luz tantas crias quantas meu ventre, auxiliado por ervas poderosas, pudesse produzir.

Não éramos mais um povo pujante, nossa espécie minguava progressivamente. Apesar do alimento prolongar nossas miseráveis vidas, não somos imortais, felizmente.

Quando meu sangue tão esperado finalmente apareceu, após dias e noites de dores torturantes, confirmada minha ansiada fertilidade, fui submetida ao ritual da Consagração de uma mãe: fui lavada e raspada, untada com óleos perfumados, tive meus cabelos escovados até que os fios estivessem lisos e brilhantes e recebi as vestes brancas cerimoniais.

Suportei o tormento com bravura, embora tudo me parecesse bastante assustador.

Eu mesma deveria encontrar o macho com quem acasalaria, falaram. Deveria ir à Floresta em busca de um exemplar forte e robusto, apto a fertilizar meu ventre com sucesso repetidas vezes. Duas de minhas irmãs me acompanhariam na incursão para ajudar-me na caça e na escolha de um espécime. Ele seria meu escravo, meu somente, e não poderia ser usado por nenhuma outra fêmea enquanto me servisse. Quando não mais precisasse dele, sua semente seria extraída mais uma vez, misturada à bebida amarga de folhas mortas e distribuída entre todas as mulheres __ então, beberíamos seu sangue até a derradeira gota e devoraríamos suas vísceras ainda pulsantes de vida.

Assim sobrevivemos, alimentando-nos de outras criaturas, humanos como nós, se é que restava em nós alguma humanidade. E o macho reprodutor era a iguaria mais cobiçada, pois acreditava-se que sua essência guardasse imensa energia vital.

Explicaram-me como o escravo seria usado por mim, como eu o deixaria tomar meu corpo e me impregnar com sua semente tanto quanto bastasse para fertilizar-me contínuas vezes.

Todas estas coisas eu conheci em minha Consagração. Tudo isto me foi revelado com grande solenidade, dando a entender que se tratava de um pacto sagrado para meu povo.

Meu rosto terá demonstrado o horror e o medo que senti ao antever meu futuro, pois minha mãe interrompeu-nos e, para minha surpresa, pela primeira vez, eu a vi sorrir. Sua mão enrugada e lívida pousou em minha cabeça, como se quisesse me tranquilizar.

Após um instante, falou-me em uma voz calorosa e apaziguadora, o que não era de seu feitio. Eu não precisava afligir-me, disse, ser possuída por um macho não era algo absolutamente terrível, ao contrário, causava enorme satisfação e prazer à fêmea.

Mantive-me quieta e silente. A ideia de ser empregada como equipamento de reprodução revoltava-me, embrulhava meu estômago, da mesma maneira que os banquetes que fazíamos para devorar a carne dos escravos, alguns jovens demais para morrer. Eles eram levados às câmaras mais profundas e secretas da Cripta pelas fêmeas, eu sempre soube, e permaneciam entre nós por muito tempo antes de serem sacrificados. Só então compreendi por que eram levados para lá e o que acontecia. Nunca estive na Cripta nessas ocasiões, os gritos angustiados saídos dali faziam meus pés correrem como o fogo. Tampouco imagino que tivesse permissão para desfrutar de tal divertimento.

Pode ser que minha mãe e a ama vissem minha aversão a nossos costumes como um bom sinal, uma evidência de que eu guiaria bem meu povo, respeitava as leis (embora pouco conhecesse delas de fato). Uma mãe, uma líder, não tomava parte naquelas orgias da carne, está claro, pois podia usufruir do próprio escravo durante seu período fértil.

Segundo me contaram minhas irmãs, depois de meu nascimento, quando ficou confirmado que o ventre da mãe secara, e seu escravo foi morto, como mandava a lei, ela jamais se deitou com outro. Nada havia a impedi-la, mas ela assim decidiu. Igualmente, nunca mais bebeu o sangue ou comeu a carne dos que eram abatidos, sobrevivendo de raízes e ervas colhidas e armazenadas por ela mesma. Por isso, envelhecera tão rápido, enfraquecendo mais e mais, tornando urgente que outra tomasse seu lugar, eu, no caso, antes que ela partisse.

Conhecer a história de minha mãe me surpreendeu, espantou-me que ela pudesse nutrir qualquer tipo de sentimento dentro de si, salvo aqueles envolvendo o conforto de seu povo. De fato, nós não éramos ligadas por laços de afeto ou coisa semelhante. Foi o que me ocorreu, ao ouvir de seu passado, que ela tivesse uma ligação especial com meu pai, do contrário, por que haveria de impor-se tamanha abstinência, visto que os prazeres do corpo e do estômago eram tão apreciados entre nós.

Ingenuamente, expus essas conclusões às minhas irmãs, cujas reações de assombro logo me fizeram arrepender. A seus olhos, percebi, eu seria a mais ignorante criatura e acabara de proferir uma blasfêmia, afinal, de que modo uma fêmea haveria de apegar-se a um vil escravo, que somente existia para dar prazer a nossos corpos e saciar nossa fome.

Desnecessário acrescentar: jamais ousei pronunciar tal abominação novamente. Mas um detalhe ficou retido em meu cérebro: se minha mãe podia manter-se com raízes, eu também poderia e, desse modo, não seria mais obrigada a engolir a porção de sangue e carne humanos que me cabia. Até aquele preciso momento, por mais que eu relutasse, não podia subtrair-me à rigorosa vigilância da ama, que cuidava para que eu estivesse sempre bem alimentada, nem ao escárnio geral diante da evidente repulsa que exibia diante de minha dieta. A ama era uma das anciãs, designada pela mãe para cuidar de suas filhas até o primeiro sangramento ou até completarem o décimo quinto ciclo. Obviamente, pelas razões aqui reveladas, fui uma das que mais suportei sua presença.


(continua)